Whats: (11)991916085

Você está em: Página inicial / Marcantes / Viagem à roda de mim mesmo

Terapia de Regressão de Memória

Viagem à roda de mim mesmo

Livro: Viagem à roda de mim mesmo

Autor - Fonte: Machado de Assis

Ir para a página:

... Machado de Assis

CAPITULO PRIMEIRO

QUANDO ABRI os olhos, era perto de nove horas da manhã. Tinha sonhado que o sol,
trajando calção e meia de seda, fazia-me grandes barretadas, bradando-me que era
tempo, que me levantasse, que fosse ter com Henriqueta e lhe dissesse tudo o que trazia
no coração. Já lá vão vinte e um anos! Era em 1864, fins de novembro. Contava eu então
vinte e cinco anos de idade, menos dous que ela. Henriqueta enviuvara em 1862, e,
segundo toda a gente afirmava, jurara a si mesma não passar a segundas núpcias. Eu,
que chegara da província no meado de julho, bacharel em folha, vi-a poucas semanas
depois, e fiquei logo ardendo por ela.
Tinha o plano feito de desposá-la, tão certo como três e dous serem cinco. Não se
imagina a minha confiança no futuro. Viera recomendado a um dos ministros do gabinete
Furtado, para algum lugar de magistrado
no interior, e fui bem recebido por ele. Mas a
água da Carioca embriagou-me logo aos primeiros goles, de tal maneira que resolvi não
sair mais da capital. Encostei-me à janela da vida, com os olhos no rio que corria
embaixo, o rio do tempo, não só para contemplar o curso perene das águas, como à
espera de ver apontar do lado de cima ou de baixo a galera de ouro e sândalo e velas de
seda, que devia levar-me a certa ilha encantada e eterna. Era o que me dizia o coração.
A galera veio, chamava-se Henriqueta, e no meio das opiniões que dividiam a capital,
todos estavam de acordo em que era a senhora mais bonita daquele ano. Tinha o único
defeito de não querer casar outra vez; mas isto mesmo era antes um pico, dava maior
preço à vitória, que eu não deixaria de obter, custasse o que custasse, e não custaria
nada.
Já por esse tempo abrira banca de advogado, com outro, e morava em uma casa de
pensão. Durante a sessão legislativa, ia à Câmara dos Deputados, onde, enquanto me
não davam uma pasta de ministro, cousa que sempre reputei certa, iam-me distribuindo
notícias e apertos de mão. Ganhava pouco, mas não gastava muito; as minhas grandes
despesas eram todas imaginativas. O reino dos sonhos era a minha casa da moeda.
Que Henriqueta estivesse disposta a romper comigo o juramento de viúva, não ouso
afirmá-lo; mas creio que me tivesse certa inclinação, que achasse em mim alguma cousa
diversa dos demais pretendentes, diluídos na mesma água de salão. Viu em mim o
gênero singelo e extático. Para empregar uma figura, que serve a pintar a nossa situação
respectiva, era uma estrela que se deu ao incômodo de descer até à beira do telhado.
Bastava-me trepar ao telhado e trazê-la para dentro; mas era justamente o que não
acabava de fazer, esperando que ela descesse por seu pé ao peitoril da minha janela.
Orgulho? Não, não; acanhamento, acanhamento e apatia. Cheguei ao ponto de crer que
era aquele o costume de todos os astros. Ao menos, o sol não hesitou em fazê-lo naquela
célebre manhã. Depois de aparecer-me, como digo, de calção e meia, despiu a roupa, e
entrou-me pelo quarto com os raios nus e crus, raios de novembro, transpirando a verão.
Entrou por todas as frestas, cantando festivamente a mesma litania do sonho: "Eia,
Plácido! acorda! abre-lhe o coração! levanta-te! levanta-te!"
Levantei-me resoluto, almocei e fui para o escritório. No escritório, seja dito em honra
do amor, não minutei nada, arrazoado ou petição, minutei de cabeça um plano de vida
nova e magnífica, e, como tivesse a pena na mão, parecia estar escrevendo, mas na
realidade o que fazia eram narizes, cabeças de porco, frases latinas, jurídicas ou
literárias. Pouco antes das três retirei-me e fui à casa de Henriqueta.
Henriqueta estava só. Pode ser que então pensasse em mim, e até que tivesse idéia de
negar-se; mas neste caso foi o orgulho que deu passaporte ao desejo; recusar-me era ter
medo, mandou-me entrar. Certo é que lhe achei uns olhos gelados; o sangue é que talvez
não o esti ...

Ir para a página:

Busca Google