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A chave

Livro: A chave

Autor - Fonte: Machado de Assis

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... LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico
A Chave, de Machado de Assis
Edição de Referência: Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.
Não sei se lhes diga simplesmente que era de madrugada, ou se comece num tom mais
poético: aurora, com seus róseos dedos. A maneira simples é o que melhor me conviria
a mim, ao leitor, aos banhistas que estão agora na Praia do Flamengo — agora, isto é, no
dia 7 de outubro de 1861, que é quando tem princípio este caso que lhes vou contar.
Convinha-nos isto; mas há lá um certo velho, que me não leria, se eu me limitasse a dizer
que vinha nascendo a madrugada, um velho que. degamos quem era o velho.
Imaginem os leitores um sujeito gordo, não muito gordo — calvo, de óculos, tranqüilo,
tardo, meditativo. Tem sessenta anos: nasceu com o século. Traja asseadamente um
vestuário da manhã; vê-se que é abastado ou exerce algum alto emprego na
administração. Saúde
e ferro. Disse já que era calvo; equivale a dizer que não usava
cabeleira. Incidente sem valor, observará a leitora, que tem pressa. Ao que lhe replico que
o incidente é grave, muito grave, extraordinariamente grave. A cabeleira devia ser o
natural apêndice da cabeça do major Caldas, porque cabeleira traz ele no espírito, que
também é calvo.
Calvo é o espírito. O major Caldas cultivou as letras, desde 1821 até 1840 com um ardor
verdadeiramente deplorável. Era poeta; compunha versos com presteza, retumbantes,
cheios de adjetivos, cada qual mais calvo do que ele tinha de ficar em 1861. A primeira
poesia foi dedicada a não sei que outro poeta, e continha em germe todas as odes e
glosas que ele havia de produzir. Não compreendeu nunca o major Caldas que se
pudesse fazer outra cousa que não glosas e odes de toda a casta, pindáricas ou
horacianas, e também idílios piscatóricos, obras perfeitamente legítimas na aurora literária
do major. Nunca para ele houve poesia que pudesse competir com a de um Dinis ou
Pimentel Maldonado; era a sua cabeleira do espírito.
Ora, é certo que o major Caldas, se eu dissesse que era de madrugada, dar-me-ia um
muxoxo ou franziria a testa com desdém. — Madrugada! era de madrugada! murmuraria
ele. Isto diz aí qualquer preta: — "nhanhã, era de madrugada." Os jornais não dizem de
outro modo; mas numa novela.
Vá pois! A aurora, com seus dedos cor-de-rosa, vinha rompendo as cortinas do oriente,
quando Marcelina levantou a cortina da barraca. A porta da barraca olhava justamente
para o oriente, de modo que não há inverossimilhança em lhes dizer que essas duas
auroras se contemplaram por um minuto. Um poeta arcádico chegaria a insinuar que a
aurora celeste enrubesceu de despeito e raiva. Seria porém levar a poesia muito longe.
Deixemos a do céu e venhamos à da terra. Lá está ela, à porta da barraca com as mãos
cruzadas no peito, como quem tem frio; traja a roupa usual das banhistas, roupa que só
dá elegância a quem já a tiver em subido grau. É o nosso caso.
Assim, à meia-luz da manhã nascente, não sei se poderíamos vê-la de modo claro. Não;
é impossível. Quem lhe examinaria agora aqueles olhos úmidos, como as conchas da
praia, aquela boca pequenina, que parece um beijo perpétuo? Vede, porém, o talhe, a
curva amorosa das cadeiras, o trecho de perna que aparece entre a barra da calça de
flanela e o tornozelo; digo o tornozelo e não o sapato porque Marcelina não calça sapatos
de banho. Costume ou vaidade? Pode ser costume; se for vaidade é explicável porque o
sapato esconderia e mal os pés mais graciosos de todo o Flamengo, um par de pés finos,
esguios, ligeiros. A cabeça também não leva coifa; tem os cabelos atados em parte, em
parte trançados — tudo desleixadamente, mas de um desleixo voluntário e casquilho.
Agora, que a luz está mais clara, podemos ver bem a expressão do rosto, É uma
expressão singular de pomba e gato...

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